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EU DISSE QUE NÃO TINHA NAMORADO

Episódio 1
Quem disse que homens já não conquistam na rua, mentiu. E eu descobri isso da maneira mais inesperada possível. Naquele dia eu estava a voltar para casa, já no fim da tarde. Eu vinha a andar normalmente, só queria chegar em casa, tomar banho e descansar. Estava a andar numa daquelas ruas de Luanda, já naquela hora em que começa a ficar mais calmo. Pouca gente na rua, alguns carros a passar de vez em quando... Até que, mais à frente, eu vi um grupo de rapazes sentados no passeio. Eram vários. Tinham acabado de jogar bola. Alguns ainda estavam com a camisola do jogo, outros de calções, chinelos, sapatilhas... estavam todos ali no mambo deles, a falar e a rir sobre o jogo. E quando eu vi aquilo... Ya. Comecei logo a ficar desconfortável. Porque quem é mulher sabe. Quando tu estás sozinha numa rua e mais à frente tens um grupo de homens parados, automaticamente o teu corpo muda. O andamento muda. Tu começas a andar mais rápido, depois tentas não parecer que estás com medo, mas ao mesmo tempo ficas a pensar: "Será que vão falar comigo?" "Será que vão começar com aquelas cenas?" E eu ainda pensei: "Rapazes, isso é muito feio, ya. Começam a ficar dentro de casa, não na rua." Porque às vezes nem fazem nada, mas só o facto de serem muitos homens parados e tu seres a única mulher a passar já deixa uma pessoa desconfortável. Eu fui andando. Quanto mais perto chegava, mais conseguia ouvir a conversa deles. Estavam a falar do jogo, a discutir quem jogou melhor, quem falhou, essas cenas. Eu estava a tentar passar sem dar muita atenção. Até que ouvi: - Ui... Depois outro: - Vai lá, fala com ela. Outro começou a rir: - Fala com essa mboa, wi. Eu ouvi. Ouvi tudo. Mas fiz de conta que não ouvi nada. Continuei a andar. Até que ouvi: - Moça... Eu olhei de lado. Um deles estava a olhar para mim. Continuei. - Baby, espera aí. Nessa altura eu já estava tipo: "Meu Deus..." Mas, sinceramente, não parecia que estavam a querer fazer alguma coisa de mal. O rapaz que estava a ser incentivado pelos amigos levantou-se. Eu vi ele a aproximar-se. E quando ele chegou perto, levantou a mão, fez aquele gesto com a mão para eu parar e disse: Ele: - Desculpa, um minuto. Eu parei. Olhei para ele. E foi aí que reparei bem nele. E... Uau. Porque até então eu nem tinha prestado atenção nele direito. Mas de perto... O rapaz era bonito. Só que dava para perceber logo que ele estava nervoso. Parecia que os amigos tinham mandado ele ir falar comigo e ele estava ali sem saber muito bem como começar. Ele ficou uns segundos a olhar para mim. Depois perguntou: Ele: - Tens namorado? Quase que ia rir ya, kkkkk, primeira pergunta mesmo é essa? Mas prontos, não pensei. Juro. Não pensei mesmo. Só respondi: Eu: - Não. Ele deu um sorriso. E eu também sorri um bocadinho. Então ele disse: Ele: - Ah... ainda bem. Eu fiquei a olhar para ele. Ele continuou: Ele: - Posso falar contigo? Eu: - Podes. Ele pegou no telefone. Ele: - Posso ter o teu número? Eu dei. Ele guardou, e eu gravei o dele. Depois ficou aquele silêncio estranho de dois segundos. Ele olhou para mim e disse: Ele: - Obrigado, moça. Eu: - De nada. E pronto. Foi só isso. Ele voltou para os amigos e eu continuei o meu caminho. Mas enquanto eu andava, comecei a pensar: "Como é que eu disse que não tenho namorado?" Porque eu tinha namorado. Ou melhor... Eu tinha um relacionamento. Porque já não sabia muito bem se ainda podia chamar aquilo de namoro. Nós já estávamos há quase três semanas praticamente sem falar. O namoro estava frio. Muito frio. Ele já não me procurava como antes. Eu mandava mensagem, às vezes respondia. Às vezes demorava bué. Às vezes nem respondia. Já não havia aquela preocupação de antes. Já não havia chamadas. Já não havia aquelas conversas de madrugada. Nada. Parecia que os dois estávamos simplesmente a esperar alguém dizer: "Pronto, acabou." Só que ninguém dizia. Então, quando aquele rapaz me perguntou: "Tens namorado?" Eu disse: "Não." E a parte mais estranha? Eu nem me senti culpada na hora. Só continuei a andar. Cheguei em casa, tirei os sapatos, deixei o telefone em cima da cama e fui fazer as minhas coisas. Mas depois lembrei-me dele. Peguei no telefone. Olhei para o contacto novo. Fiquei uns segundos a olhar. E pensei: "Será que ele vai mesmo mandar mensagem?" Como se tivesse ouvido os meus pensamentos... O telefone vibrou. Peguei. Era o meu namorado. Depois de quase três semanas sem praticamente falar comigo. A mensagem dizia: "Precisamos conversar." Fiquei a olhar para aquilo. E a primeira coisa que pensei foi: "Conversar sobre o quê?" Depois pensei: "Fiz mais o quê?" Aquilo doeu um pouco, porque eu já estava cansada daquela situação. Eu nem sabia se ainda éramos namorados ou se só estávamos a adiar o fim. Fiquei ali alguns segundos sem saber o que responder. Até que... O telefone vibrou outra vez. Desta vez era o número novo. Era ele. O rapaz que tinha acabado de conhecer na rua. A mensagem dizia: "Oi, tudo bem? Já chegaste em casa?" Fiquei a olhar para as duas conversas. De um lado: "Precisamos conversar." Do outro: "Já chegaste em casa?" E eu só pensei: "Meu Deus... e agora?" Naquele momento eu ainda não sabia, mas alguma coisa na minha vida tinha acabado de mudar. E talvez... eu tivesse acabado de abrir uma porta que não sabia se devia abrir.