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O SEGREDO DA MINHA IRMÃ

Episódio 1
O meu nome é Ndalu. A minha irmã chama-se Muxima. Muxima quer dizer coração. E se a vida me ensinou uma coisa, é que o nome também sabe mentir. Desde que nascemos, ela foi a favorita. A mais bonita. A mais esperta. A que tinha sorte em tudo, até na hora de perder. A nossa mãe dizia sempre com a mão no peito: - Aquela menina nasceu para brilhar ya. E eu? Eu nasci para segurar a luz. Eu era a que lavava a loiça. A que tomava conta dos mais novos. A que batia o funge enquanto as visitas elogiavam a Muxima na sala. E o pior, o pior mesmo, é que a Muxima sempre quis o que era meu. Sempre. Se que eu tinha um vestido bonito, ela pedia emprestado e nunca devolvia. Se eu tinha uma amiga, ela aparecia, sorria, mexia no cabelo, e em duas semanas a amiga já era dela. Eu aprendi cedo a esconder as coisas que amava. Só que há coisas que não se escondem. Pessoas, por exemplo. Há três anos eu namorava com o Edmilson. Ele era tudo. O meu primeiro amor. O meu melhor amigo. O homem com quem eu já tinha escolhido o nome dos filhos. Dois anos juntos. Ele conhecia a minha família, eu conhecia a dele. Almoçava cá em casa todos os domingos, e a mamã chamava-lhe genro com a boca cheia de orgulho. Até ao dia em que a Muxima pôs os olhos nele. Começou devagar, como começam as cobras. Primeiro os sorrisos. Depois as mensagens "inocentes". Depois os encontros "por acaso". Eu não via nada. Eu confiava nos dois. Eu confiava no sangue. Quem confia, descobre tarde. Vi eles numa sexta-feira, na hamburgueria perto de casa, de mãos dadas por cima da mesa, a rir. A rir como se eu nunca tivesse existido. À noite, confrontei-a. Ela estava sentada na cama, a limar as unhas, e nem levantou os olhos: - Ndalu, não leves a mal. O Edmilson gosta de mim. Eu gosto dele. O amor acontece. Eu respondi, a chorar: - Mas ele é meu namorado, Muxima! Tu és minha irmã! Como é que consegues? Aí ela olhou para mim. Com uma frieza que eu nunca vou esquecer: - Eu não fiz nada. Ele é que te trocou. Se te amasse de verdade, não estava comigo. Aceita. Tu não és mulher para ele. Tu não és mulher para ele. Eu chorei dias. Semanas. Meses. E sabes o que doeu mais do que a traição? A casa. A mamã disse: - Ndalu, deixa isso. O Edmilson é um bom partido. A Muxima é mais nova mas tem cabeça. Deixa os dois serem felizes. O meu pai não disse nada. Os meus irmãos riram-se. E eu fiquei ali, no meio da sala, a perceber que a minha própria família tinha escolhido um lado. Não o meu. Passaram 3 anos. E então chegou o convite. O Edmilson ia casar com a Muxima. E eu... eu ia ser dama de honra. Dama de honra. A irmã traída. A irmã esquecida. A irmã que ia segurar o buquê, ajeitar o véu e sorrir, enquanto a ladra vestia branco. - Mãe, ela roubou o namorado - disse eu, com a voz a tremer, continuei: - E agora quer que eu segure a cauda do vestido dela? A minha mãe: - Ndalu, não sejas mesquinha. O passado é passado. Se não estiveres lá, fica mal na fotografia.