A FILHA DA MINHA MADRASTA
Episódio 11
A esquadra de Benguela cheirava a papel velho. Eu estava sentado numa cadeira de plástico, e o Nelo estava do outro lado da sala, com um lenço na cara, a fingir que estava muito machucado.
Ele olhava para mim com aquele sorriso de vitória, e eu só conseguia pensar em como ia sair dali.
O agente que tomava nota olhou para mim e perguntou:
- Então, o que é que tens a dizer sobre a queixa?
Eu respirei fundo e mantive a calma.
Eu respondi, a olhar para ele:
- Senhor agente, eu não o agredi. Ele estava a chantagear a minha namorada com vídeos íntimos gravados sem autorização. Eu só intervi para a proteger. Virei ele e prendi os braços dele para ele não me atacar.
O Nelo gritou logo:
- Mentira! Ele me deu um soco! Vocês têm que prender ele!
O agente pediu calma. Nesse momento, a porta abriu-se e a tia Fátima e a Luciana entraram.
A Luciana estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, mas quando me viu, veio direta a mim e me abraçou.
Ela disse, a chorar:
- Amor, desculpa. Desculpa por tudo.
Eu respondi, a beijar a testa dela:
- Não tens que pedir desculpa. Eu estou bem.
O agente chamou a Luciana para prestar declarações. Ela contou tudo, com a voz a tremer.
Contou do namoro com o Nelo, do controlo, dos vídeos gravados escondidos, das ameaças. A tia Fátima mostrou as mensagens no telefone, com as chantagens todas.
O agente ouviu tudo com atenção e virou-se para o Nelo:
- Você vai ficar aqui. Há uma queixa contra ti por gravação não autorizada, chantagem e ameaça.
O Nelo ficou branco. Tentou argumentar, disse que tinha conhecidos, que o tio dele era alguém importante, mas o agente foi firme:
- Nós não trabalhamos por amizade. Vamos investigar tudo.
O advogado que a tia Fátima chamou chegou por volta das 23 horas. Era um homem sério, de fato escuro. Ouviu a nossa história e disse que ia apresentar queixa contra o Nelo. O Nelo foi levado para outra sala, e eu fui libertado.
Quando saímos da esquadra, a rua estava fria e silenciosa. A tia Fátima conduziu de volta para casa, e a Luciana ficou encostada a mim no banco de trás, com a cabeça no meu ombro, sem dizer nada.
Eu sentia o peso do dia todo, mas também sentia uma paz estranha. O Nelo estava detido. A Luciana estava a salvo.
Chegamos a casa e a avó estava à porta, com um lenço na cabeça e os olhos inchados. Ela abraçou a Luciana, depois a tia Fátima, depois a mim.
Ela disse, a chorar:
- Graças a Deus que estão bem. Já estava com o coração na boca.
Entramos e sentamos na sala. A avó serviu um chá quente. A tia Fátima explicou que o Nelo ia ser julgado e que a Luciana ia ter que prestar depoimento.
A Luciana chorou, mas eu segurei a mão dela e disse:
- Eu vou estar contigo. Vamos passar por isto juntos.
A tia Fátima olhou para mim e disse:
- Ivan, eu preciso de te falar sobre o teu pai. Tu já sabes o que ele fez, tu estavas lá quando eu descobri. Mas quero que saibas que já está tudo bem. Sabes uma coisa? Agora eu vejo que foi a melhor coisa que me aconteceu. Se eu não tivesse terminado com o teu pai, a Luciana nunca teria te conhecido. E, graças a ti, ela está livre de um psicopata chantagista. O teu pai foi um idiota, mas tu és um homem de verdade.
Eu respondi, a sorrir:
- Obrigado, tia. Eu só quero o melhor para ela.
Depois do chá, a tia Fátima e a avó foram dormir. Eu e a Luciana ficamos na sala, sentados no sofá. Ela olhou para mim e disse:
- Ivan, vamos para o quarto. Eu preciso de te contar tudo.
Subimos para o quarto dela. Ela fechou a porta e se sentou na cama. Eu sentei ao lado dela, e ela começou a falar.
Ela disse, a olhar para o chão:
- Ivan, eu conheci o Nelo há dois anos, aqui mesmo em Benguela. Ele era o melhor amigo do meu primo. No início era tudo bom, mas depois ele começou a ficar possessivo. Não queria que eu falasse com outros rapazes, não queria que eu saísse sem ele. Eu tentei terminar, mas ele não aceitava. Dizia que eu era dele e que nunca ia deixar eu ser de outro.
Ela parou, a limpar as lágrimas, e continuou:
- Um dia, eu descobri que ele estava a gravar as nossas conversas e os nossos momentos íntimos. Ele filmava escondido. Eu fiquei em choque e terminei tudo. Ele jurou que ia divulgar os vídeos se eu não voltasse. Eu tive medo. Ele nunca desistiu. Continuou a mandar mensagens, a ameaçar, a aparecer de surpresa. E agora, contigo, ele viu que eu estava feliz e decidiu destruir tudo.
Eu senti o meu coração apertar. Ela tinha passado por tudo aquilo sozinha, com medo, sem saber o que fazer. Eu puxei ela para o meu peito e disse:
- Luciana, eu te amo. E nada do que aconteceu no passado vai mudar isso. Eu vou estar contigo e vamos resolver isto juntos.
Ela chorou no meu ombro e adormeceu. Levei ela para a cama, deitei e cobri. Eu me deitei ao lado dela e fiquei a olhar para o teto.
Foi então que o meu telefone vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido. Eu abri e o meu coração parou.
Era um vídeo. Um vídeo da Luciana, mas não era com o Nelo. Era com outro homem. Um homem que eu não conhecia. Eles estavam num carro, a beijar, e a Luciana dizia:
- Eu te amo. Sempre te amarei.
A mensagem dizia:
- "Tu achas que sabes tudo sobre ela? Ela tem mais segredos do que imaginas."
Como esse tal desconhecido conseguiu o meu número, eu não sabia. Mas o que eu sabia é que naquela província há malucos.
Eu fiquei gelado. Olhei para a Luciana, que dormia ao meu lado. Ela tinha mais segredos. Mais homens. Mais passado. Eu não sabia o que fazer.
Mas, naquele momento, eu tomei uma decisão. Não importava o que ela tinha feito no passado. Não importava os homens tóxicos que ela tinha conhecido. Eu já a amava. Ia levar ela para Luanda depois de resolver com a justiça, ir para longe de Benguela, para longe do passado dela. Ia construir uma nova vida para ela. Uma vida em que ela não precisasse ter medo.
Eu beijei a testa da Luciana e sussurrei:
- Não sei se o problema é a Luciana ou os homens tóxicos que ela se envolveu, mas eu quero ela. E não quero fazer parte do passado dela. Vou levar ela para Luanda e construir uma nova vida para ela. Ela precisa fugir do passado e recomeçar em outro lugar. Benguela já não é para ela.
E, com essa decisão, eu adormeci ao lado dela, pronto para o que viesse.