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A FILHA DA MINHA MADRASTA

Episódio 12
Os dias seguintes foram de paz, ou pelo menos foi o que eu pensei. O caso do Nelo avançou na justiça. A tia Fátima e a avó fizeram questão de ir até às últimas consequências. Ele foi formalmente acusado de gravação não autorizada, chantagem e ameaça. Ficou com a medida de coação de não se aproximar da Luciana a menos de 500 metros. A Luciana prestou depoimento, chorou muito, mas saiu de lá com a sensação de dever cumprido. Eu fiquei ao lado dela todo o tempo, de mão dada. Quando o juiz bateu o martelo, ela olhou para mim e sorriu. Era o fim daquele pesadelo. Quer dizer, aí estávamos já tipo aqueles casos dos filmes, kkkk. Naquela tarde, a Luciana decidiu que precisávamos sair, pra relaxar e conhecer Benguela. Disse que queria me apresentar às amigas dela, as meninas com quem ela cresceu em Benguela. Ela disse, a sorrir: - Amor, vamos comer algo na cidade. Vais conhecer as minhas amigas, elas são doidas, mas são boas pessoas. Eu aceitei, claro. Queria ver a Luciana feliz, longe daquela tensão toda. Chegamos ao restaurante por volta das 19 horas. Era um sítio lindo, com música ao vivo e uma esplanada. As amigas da Luciana já estavam lá. Eram três: a Tânia, a Jéssica e a Ruth. Eram lindas ya, kkkk, tenho que admitir. Pele preta com bué de brilho, uma mulata, bem cuidadas, com aqueles olhos de quem já viu tudo e mais alguma coisa, nenhuma inocente. A Tânia, a mais extrovertida, olhou para mim e disse, a rir: - Ah, então és tu o Ivan? A Luciana não para de falar de ti. Eu respondi, sem jeito: - É verdade, eu mesmo, kkkk. A Jéssica, a mais calada, olhou-me de cima a baixo e sorriu. A Ruth, a mais nova, limitou-se a acenar. O jantar foi divertido. Elas riram, contaram histórias da Luciana, fizeram piadas. A Luciana estava feliz, e eu gostava de a ver assim. Mas, de vez em quando, eu sentia o olhar da Tânia em cima de mim. Um olhar que não era normal. Por volta das 21 horas, a Luciana, a Jéssica e a Ruth foram ao WC. Fiquei na mesa com a Tânia. Ela aproveitou a deixa, e aproximou-se. Encostou-se na mesa, com aqueles olhos fixos nos meus, e disse, com uma voz doce: - Ivan, deixa-me dizer-te uma coisa. Tu és mesmo giro. A Luciana tem sorte. Aquilo estava tão óbvio que respondi, a tentar manter a calma: - Obrigado. Mas eu já tenho a Luciana. E estou muito bem com ela. Ela riu, um riso curto, e pousou a mão no meu braço. Ela disse: - Meu, relaxa. Eu não quero roubar o lugar dela. Só quero um momento contigo. Em Benguela, ninguém se importa com essas coisas de namoro. Aqui, a vida é para ser vivida. Cada um vive a sua vida, e ninguém julga. Eu respondi, a afastar a mão dela devagar: - Eu não sou de Benguela, Tânia. E para mim, as coisas são diferentes. Eu respeito a Luciana. Ela sorriu, e tirou um lenço da mala. Pegou numa lapiseira, escreveu um número, e pôs na minha mão. Ela disse: - Guarda. Se um dia mudares de ideia, é só ligar. Qualquer hora, fofo. Eu olhei para o número na minha mão, e senti o chão a fugir. Aquela era a malandrice que a Luciana me tinha falado. E, de repente, eu percebi de onde vinha a malandrice dela. A Luciana cresceu no meio daquilo. O Nelo, a Tânia... era tudo a mesma escola. As meninas voltaram do WC, e a Tânia voltou a ser a amiga divertida. Mas eu já não estava a gostar daquilo. Saímos do restaurante por volta das 22 horas. Estávamos no passeio, a despedir-nos, quando um carro parou ao lado. Um homem saiu. Alto, moreno, com uma camisa aberta e um ar de quem manda. Ele olhou para a Ruth, e disse: - Ruth, vamos. A Ruth olhou para as amigas. Ela disse: - Meus amores, já vou, com o meu marido. (Namorado) Eu olhei para o homem, e o meu sangue gelou. Era ele. O homem do vídeo. O homem que estava no carro com a Luciana. Era o namorado da Ruth, eu não estava a acreditar no que estava a ver naquele meio, onde eu fui me meter? A Luciana olhou para mim, e percebeu que algo estava errado. Ela disse, baixinho: - Ivan, amor, o que é que se passa? Eu respirei fundo, e respondi, com a voz calma: - Não é nada, amor. Vamos. A Luciana olhou para mim, desconfiada, mas não insistiu. Ela sabia que eu estava a esconder algo, mas confiou em mim. O homem da Ruth olhou para nós, e sorriu. Um sorriso de quem sabia que estava a incomodar. Ele pousou a mão nas costas da Ruth, e disse: - Vamos, amor. Já é tarde. A Ruth olhou para a Luciana, com um ar de desculpa, e entrou no carro. O homem entrou também, e o carro arrancou. A Tânia e a Jéssica despediram-se da Luciana com abraços. Depois, a Tânia virou-se para mim. Ela se aproximou, como se fosse me dar um abraço de despedida, e sussurrou no meu ouvido: - Me liga, bebê. Qualquer hora. Ela se afastou, com aquele sorriso maroto, e entrou no carro da Jéssica. O carro arrancou, e ficamos ali, os dois, sozinhos no passeio. A Luciana olhou para mim. Ela disse: - Amor, esse é o meu mundo, e pra ser sincera, estou cansada dessa cidade. Eu respondi, a olhar para ela: — Eu sei, Luciana. Eu sei. Mas esta cidade... esta cidade está mal. Eu preciso de te tirar daqui, vou conversar com o meu pai, e depois com a tua mãe e a tua avó amanhã. Ela olhou para mim, com os olhos a brilhar, e disse: - Então me leva. Leva-me para Luanda. Para longe daqui. Para longe de tudo isto, eu posso pedir transferência na universidade e continuar lá. Eu beijei a testa dela, e disse: - Vou levar. Vamos embora. Vamos construir uma nova vida, longe de Benguela. Ela me abraçou com força, e eu senti o coração dela a bater contra o meu. Naquele momento, eu soube que a decisão estava tomada. Não ia deixar que a Luciana se afundasse naquela cidade. Ia levá-la para Luanda. Voltamos para casa em silêncio, mas não era um silêncio pesado. Era um silêncio de quem já tinha tomado uma decisão. A tia Fátima e a avó já estavam a dormir. Subimos para o quarto, e a Luciana adormeceu nos meus braços. Eu fiquei acordado, a olhar para o teto, a pensar no que ia fazer. Amanhã, ia falar com a tia Fátima. Ia dizer-lhe que ia levar a Luciana para Luanda. Ia pedir a bênção dela. E ia começar uma nova vida.