A FILHA DA MINHA MADRASTA
Episódio 13
Acordei antes do sol nascer. A Luciana dormia profundamente ao meu lado, com a cabeça no meu peito e o cabelo espalhado pelo travesseiro.
Fiquei uns minutos a olhar para ela. Ela parecia tão tranquila, tão diferente daquela rapariga assustada que eu tinha visto na esquadra.
Levantei-me devagar, para não a acordar, e desci para a cozinha. A tia Fátima já estava lá, com um avental e a chaleira no fogo.
Ela olhou para mim, surpresa:
- Ivan? De pé tão cedo?
Eu respirei fundo, e me sentei à mesa.
Eu disse:
- Tia, preciso de falar contigo. É sobre a Luciana.
Ela desligou o fogo, e se sentou à minha frente.
Ela disse:
- Estou a ouvir.
Eu disse:
- Tia, eu não posso deixar a Luciana aqui. Benguela está a destruí-la. O Nelo, as amigas, esta cidade está cheia de gente tóxica. Eu quero levá-la para Luanda.
A tia Fátima ficou em silêncio por um momento. Depois, suspirou, e disse:
- Ivan, eu sei que tu amas a minha filha. E sei que ela te ama. Mas Luanda... Luanda também tem os seus perigos. E o teu pai? Tu vais voltar para a mesma casa dele?
Eu respondi, a olhar para ela:
- Sim, tia. A ideia é voltar para a casa do meu pai. Apesar de tudo, ele é o meu pai. E eu sei que, no fundo, ele vai apoiar a minha decisão. Não vou abandoná-lo, e não vou deixar que a Luciana fique longe de mim, quero ela como minha mulher.
A tia Fátima olhou para mim.
Ela disse:
- Ivan, tu és um bom rapaz. Eu já sabia disso. E se há alguém em quem eu confio para cuidar da minha filha, és tu. Vai. Leva-a.
Eu me levantei, e abracei a tia Fátima.
Eu disse:
- Obrigado, tia. Não vou decepcionar-te.
Antes de subir para acordar a Luciana, eu peguei no telemóvel e tentei ligar para o meu pai. A chamada não passava. Dava sempre indisponível, ou fora de área. Tentei mais duas vezes, três, e nada.
A tia Fátima olhou para mim, preocupada:
- Ivan, o que é que se passa?
Eu respondi, a desligar o telefone:
- Não sei. O meu pai não atende, ou seja, o número dele não passa. Vamos ter que esperar a comunicação voltar.
A tia Fátima assentiu, e disse:
- Vai com calma. Fala com ele quando conseguires. Mas vai. A Luciana não pode ficar aqui, kkkkk.
Subi as escadas, e acordei a Luciana com um beijo na testa.
Ela abriu os olhos, e sorriu.
Ela disse, com a voz arrastada:
- Bom dia, amor.
Eu respondi, a sorrir:
- Bom dia. Veste-te. Vamos embora.
Ela olhou para mim, surpresa.
Ela disse:
- Embora? Para onde?
Eu respondi, a beijar-lhe a mão:
- Para Luanda. Vamos começar uma nova vida. A tua mãe já deu a bênção.
A Luciana ficou em choque. Depois, os olhos dela encheram-se de lágrimas, e ela me abraçou com força.
Ela disse, a chorar:
- Ivan, tu não sabes o quanto eu quero isso. Obrigada. Obrigada por não desistires de mim.
Eu respirei fundo, e decidi que era o momento certo.
Eu disse, a olhar para ela:
- Luciana, eu quero fazer as coisas como deve ser. Quando chegarmos a Luanda, quero falar com a tua mãe e com a minha família. Quero fazer a nossa apresentação. Quero oficializar o nosso noivado. Em alguns meses, se tu quiseres, casamos.
A Luciana ficou parada, com os olhos arregalados.
Ela disse:
- Ivan, tu estás a falar a sério? Apresentação? Noivado?
Eu respondi, a sorrir:
- Estou. Eu quero passar o resto da minha vida contigo. E quero fazer tudo como manda a tradição. Quero que a tua família e a minha estejam lá.
Ela mordeu o lábio, a pensar. Eu vi que ela estava nervosa.
Ela disse, a olhar para o chão:
- Ivan, eu não sei. É muito rápido. E depois de tudo o que aconteceu...
Eu segurei o rosto dela, e disse:
- Eu sei que é rápido. Mas eu te amo. E não quero esperar mais. Quero que saibas que és a mulher da minha vida.
Ela olhou para mim, e eu vi uma lágrima a cair.
Ela disse, a sorrir:
- Está bem. Eu aceito. Vamos fazer a apresentação. Vamos ficar noivos.
Eu a beijei, e senti o coração a explodir de felicidade.
Arrumamos as coisas em menos de uma hora, nos preparamos. A avó acordou, e quando soube da notícia, chorou, mas de alegria.
Ela disse, a abraçar a neta:
- Vai, minha filha. Vai ser feliz. E não te esqueças de ligar à tua avó todos os dias.
Saímos de casa por volta das 10 horas. A tia Fátima e a avó acompanharam-nos até ao portão.
A tia Fátima abraçou a filha com força, e depois me abraçou a mim.
Ela disse, baixinho:
- Cuida dela, Ivan. Ela é tudo o que eu tenho.
Eu respondi:
- Pode deixar, tia.
Chamamos um táxi para o terminal rodoviário. Durante o caminho, a Luciana ficou encostada a mim, com a mão na minha. A chamada para o meu pai continuava a não passar, mas eu decidi que ia tentar novamente quando chegasse a Luanda.
Chegamos ao terminal por volta das 10h30. Compramos os bilhetes para o autocarro das 11 horas, e sentamos numa esplanada a beber um sumo.
Foi então que vi um autocarro ao terminal. E saiu ele. O meu pai.
Ele estava com uma mala na mão, com o rosto cansado, e olhou à volta, como se estivesse à procura de alguém. Quando os olhos dele encontraram os meus, ele parou, nós os dois surpresos por nos vermos aí.
A Luciana olhou para mim, e depois para o meu pai, sem acreditar no que estava a ver. Ela ficou tensa.
Ela disse, baixinho:
- Ivan, o que é que o teu pai está aqui a fazer?
O meu pai aproximou-se de nós. Ele olhou para mim, depois para a Luciana, e disse:
- Ivan, Luciana. Eu vim atrás de ti, filho. A Fátima ligou-me, contou-me tudo que aconteceu aqui. Eu vim para te levar de volta.
A tia Fátima, que tinha ficado em casa, apareceu de repente. Ela devia ter vindo atrás de nós. Mas teve outra surpresa, quando viu o meu pai, o rosto dela mudou.
Ela disse, com a voz a tremer de raiva:
- O que é que tu estás aqui a fazer? Traidor.
O meu pai olhou para ela, com os olhos cheios de dor.
Ele disse:
- Fátima, eu não te traí. Eu nunca te traí.
Ela respondeu:
- Não me traíste? Eu vi as mensagens! Eu vi as fotos!
Ele respondeu, a voz a tremer:
- As mensagens eram de uma colega de trabalh, sim. As fotos eram de uma reunião. Eu nunca te traí, Fátima. Eu não sou assim tão burro pra fazer isso com uma mulher.
A tia Fátima ficou parada, com os olhos arregalados. Ela olhou para ele, e eu vi que ela queria acreditar.
Ela disse:
- Porque é que não me disseste nada?
Ele respondeu:
- Porque tu não me deixaste explicar. Tu terminaste tudo e foste embora. Eu tentei ligar, mas tu bloqueaste-me. Eu tive que vir atrás de ti.
A avó da Luciana, que também tinha vindo, aproximou-se do meu pai. Ela olhou para ele, e disse:
- João, tu sempre foste um bom homem. Eu sempre soube. Vamos conversar.
O meu pai olhou para a avó, e sorriu, aliviado.
Ele disse:
- Obrigado, dona. Obrigado por acreditar em mim.
A tia Fátima ficou ali, parada, a olhar para o meu pai. Ela não disse nada, mas eu vi que o coração dela estava a amolecer.
A Luciana olhou para mim, e sussurrou:
- Ivan, o que é que isto significa para nós?
Eu respondi, a segurar a mão dela:
- Significa que o meu pai não traiu a tua mãe. E que, talvez, eles possam resolver as coisas. Mas, independentemente disso, nós vamos ficar juntos. Isso não muda nada.
Ela sorriu, e me beijou.
O meu pai aproximou-se de mim, e disse:
- Ivan, eu sei que errei contigo. Eu não devia ter tentado separar-te da Luciana. Eu estava com medo. Medo de perder a Fátima, medo de perder a família. Mas eu vejo agora que tu amas mesmo esta rapariga. E eu quero apoiar-te.
Eu olhei para ele, e senti um nó na garganta.
Eu respondi:
- Obrigado, pai. Isso significa muito para mim.
Ele sorriu. A tia Fátima aproximou-se, e abraçou a filha. A avó olhou para todos, e disse:
- Vamos todos para casa. Temos muito que conversar.
Voltamos para a casa da tia Fátima. A tia Fátima e o meu pai ficaram na sala, a conversar. A Luciana e eu ficamos no quintal, sentados no banco.
Ela disse, a encostar a cabeça no meu ombro:
- Ivan, tu acreditas que eles vão resolver as coisas?
Eu respondi, a beijar-lhe a testa:
- Acredito. O meu pai ama a tua mãe. E ela também o ama. Eles só precisam de conversar.
Ela sorriu, e ficamos ali, em silêncio, a aproveitar a paz.
No dia seguinte, a tia Fátima convidou-nos para ir a casa de uma amiga dela, a dona Muxima, para um almoço, junto com o meu pai que parecia já estar bem com a tia Fátima. Eu aceitei, claro.
Quando chegamos, a Luciana olhou para a casa, e ficou pálida.
Ela disse, baixinho:
- Ivan, esta é a casa da Tânia.
Eu olhei para ela, surpreso.
Eu disse:
- A Tânia? A tua amiga?
Ela assentiu, a engolir em seco.
Ela disse:
- A dona Muxima é a mãe dela.
Entramos. A Tânia estava lá, com aquele sorriso maroto, e nos recebeu com um abraço.
Ela disse:
- Ah, o Ivan! Que bom ver-te outra vez.
O almoço foi animado, com a tia Fátima, o meu pai, a avó, a Luciana e a Tânia. Depois do almoço, a Luciana e as outras mulheres (COM RESPEITO) foram comprar bebidas para o jantar. Eu fiquei na sala, só com a Tânia, meu pai estava por aí.
Ela se sentou ao meu lado, no sofá, e encostou-se a mim.
Ela disse, com aquela voz doce:
- Ivan, então tu e a Luciana vão mesmo ficar juntos?
Eu respondi, a tentar manter a distância:
- Sim. Vamos ficar noivos.
Ela riu, um riso curto, e pousou a mão na minha perna.
Ela disse:
- Noivos? Que pena. Eu ainda tinha esperança.
Eu respondi, a afastar a mão dela:
- Tânia, eu amo a Luciana. E não vou traí-la.
Ela se aproximou mais, e sussurrou no meu ouvido:
- Ivan, eu sei que tu me desejas. Eu vi nos teus olhos. E eu não me importo que estejas com a Luciana. Em Benguela, as pessoas vivem a vida. Ninguém julga.
Eu senti o meu corpo a responder, e a minha cabeça a lutar. Ela estava tão perto, o cheiro dela era doce, e os lábios dela estavam a milímetros dos meus.
Eu disse, a voz a falhar:
- Tânia, não...
Ela sorriu, e encostou os lábios nos meus. Eu não me afastei. O beijo foi curto, mas intenso. E, quando ela se afastou, eu senti o chão a fugir.
Ela disse, a sorrir:
- Vês? Eu sabia.
Eu fiquei parado, com o coração a bater forte. O que é que eu tinha feito? Eu tinha traído a Luciana. E, no fundo, eu sabia que a Tânia ia usar aquilo contra mim.