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O SEGREDO DA MINHA IRMÃ

Episódio 2
A minha mãe disse: - Ndalu, não sejas mesquinha. O passado é passado. Se não estiveres lá, fica mal na fotografia. Eu respondi, com a voz a tremer: - Mãe, ela roubou-me o namorado. E agora quer que eu segure a cauda do vestido dela? Ela disse, com aquele tom de quem não quer discussão: - Ndalu, é a tua irmã. Vai ficar mal na fotografia. Apoia ya, minha filha linda. Eu fiquei em silêncio. Não tinha forças para lutar. Aceitei. Não por bondade. Aceitei porque estava cansada demais para discutir, e porque, lá no fundo, uma parte de mim queria estar presente. Queria ver. Queria ter, finalmente, uma razão para explodir. O vestido chegou numa caixa. Preto. Justo. Alças finas. A Muxima disse, a sorrir: - É elegante, mana. Vais ficar fixe. Eu respondi, sem olhar para ela: - Preto. Num casamento. Ela riu-se e disse: - É moderno, ya. Confia em mim. A tia Beta olhou para mim, olhou para o vestido, e murmurou: - Hmm. Cor de luto. Ninguém riu. Ninguém corrigiu. Eu sorri. Já sabia sorrir naquela casa. Uma semana antes do casamento, eu estava em casa da Muxima a ajudar nos preparativos. Fitas, flores, lembranças, a confusão normal. Ela gritou da cozinha: - Ndalu, vai ao quarto buscar o meu telemóvel, por favor! Eu fui. Estava em cima da cama. Desbloqueado. Uma pasta aberta no ecrã. Vídeos. Carreguei no primeiro, sem pensar. E o meu coração parou. Era a Muxima. Dentro de um carro, à noite, as luzes da Marginal a passarem-lhe pela cara. E ao lado dela, o Kiala, o ex-namorado, o mesmo que ela largou para ficar com o Edmilson. Estavam a beijar-se. Não era um beijo de despedida. Era um beijo de quem tem fome. Depois ela afastou-se, a rir, e disse: - Eu só estou com o Edmilson pelo dinheiro dele. Ele é burro, mas tem dinheiro. Tu és o meu amor. Sempre foste. O Kiala respondeu, a rir: - Muxima, tu és uma cobr@. Mas eu amo-te. Quando é que o deixas? Ela disse: - Depois do casamento. Depois de ficar com a casa e com o carro. Aí, largo. As minhas mãos começaram a tremer. Olhei para a data do ficheiro: dois meses antes. Dois meses. Ela ia casar com o Edmilson e já o estava a trair. Com o ex. Com o homem que ela largou para me roubar o meu. Não aguentei ouvir mais. Parei o vídeo ali. Ouvi os passos dela no corredor. Num segundo, enviei o ficheiro para o meu número e apaguei o rasto. Pousei o telemóvel na cama. Sorri. Eu disse: - Está aqui, mana. Ela disse: - Obrigada, mana. Tu és a minha rocha. A rocha. Naquela noite eu não dormi. Fiquei de olhos abertos, a olhar para o teto, com uma certeza fria a crescer dentro do peito. Eu tinha uma arma. E ia usá-la. O dia do casamento chegou. Sábado. Luanda acordou com o céu pesado e cheiro a chuva que não caiu. A casa da mamã parecia o Roque Santeiro em dia de feira: tias a gritar, primas a correr com ferros de engomar, e a tia Beta, de lenço azul na cabeça, a bater palmas como quem chama gado. A tia Beta gritou: - Quem levou o véu? Quem levou o véu?! Eu estava no canto, no meu vestido preto, com um sorriso colado na cara e o telemóvel escondido na bolsa. A Muxima estava deslumbrante. Tenho de ser honesta: estava mesmo. Sentou-se no meio das mais-velhas, de branco, e todas suspiraram. A mamã disse, de olhos molhados: - Vejam como as minhas filhas se amam. A Muxima abriu os braços e disse: - Vem cá, mana. Estás nervosa? Abracei-a. O perfume era o meu. Até isso ela me roubou. Por meio segundo, só meio, a máscara dela escorregou, e eu vi lá dentro uma coisa que não era felicidade. Era medo. Na altura, não percebi porquê. Na igreja, os candongueiros ainda buzinavam lá fora e as vendedoras de água fresca já tinham tomado o passeio. Lá dentro: gravatas, panos, chapéus de mais-velhos, gente de camisa emprestada. O bairro inteiro tinha vindo. Eu fiquei no altar, do lado esquerdo, com as flores brancas na mão. Do lado direito, o Edmilson. Fato cinzento, gravata azul, o sorriso de quem vive o melhor dia da vida. O meu polegar estava em cima do ecrã. Uma voz dentro de mim disse: - Ndalu, se enviares, não há volta. Hesitei. Juro que hesitei. Pensei na mamã. Pensei no escândalo. Pensei na vergonha que ia cair sobre o nome da nossa família. Depois o órgão começou. A porta abriu. A Muxima entrou de braço dado com o nosso tio, a luz a bater-lhe no véu, e a igreja inteira suspirou. E eu vi o sorriso dela. Vi o vestido. Vi o homem que devia ser meu, de pé no altar, a olhar para ela como nunca olhou para mim. A raiva subiu. Três anos de raiva. Três anos de "deixa os dois serem felizes". Três anos de "não és mulher para ele". Enviei. Sem mensagem. Sem palavras. Só o vídeo. O telemóvel do Edmilson vibrou no bolso do fato. Ele tirou-o, curioso, ainda a sorrir. Carregou no vídeo. O sorriso morreu devagar. Primeiro nos olhos. Depois na boca. Depois no corpo todo. Ficou branco. As mãos tremeram. Vi uma lágrima cair no ecrã. A Muxima chegou ao altar, ainda de sorriso aberto. Ela disse: - Mor? Que foi? Ele olhou para ela como quem olha para uma estranha e perguntou, baixinho, mas a igreja inteira ouviu: - Quem é o Kiala? O sorriso da Muxima ficou no rosto como uma coisa colada. Ela disse: - Edmilson, não é o que... Ele disse: - "Só estou com ele pelo dinheiro." É isso que tu dizes aqui. Pelo meu dinheiro, Muxima? Silêncio. Um silêncio tão grande que ouvi a ventoinha do teto a rodar. Ele pousou o telemóvel no degrau do altar, tirou a aliança do bolso, pousou-a ao lado, e disse, sem gritar: - Eu não consigo. E foi embora. As pessoas levantaram-se. Alguém gritou. Uma criança começou a chorar. A tia Beta berrou "Jesus, Maria, José!" e o meu pai correu atrás dele pelo corredor, a chamar "Edmilson! Edmilson, meu filho!", mas ele já tinha desaparecido pela porta grande, para dentro da luz da rua. Ouviu-se um carro arrancar. A Muxima ficou ali. De véu, de buquê, de boca aberta. Uma estátua de noiva. Depois, devagar, a cara dela virou-se. Não para a mãe. Não para a família. Para mim. Ela disse, com a voz rouca, partida: - Foste tu, Ndalu! Sua c0bra! Vais pagar por isto! Juro-te que vais pagar! Eu respondi, com uma calma que me assustou: - Pagar? Eu já paguei, Muxima. Paguei três anos. Agora é a tua vez. Ela se atirou a mim. Os primos agarraram-na. As mais-velhas gritavam. A mamã chorava, com as mãos na cabeça, e olhava para mim como se a criminosa fosse eu. Mas eu não me importei. Pela primeira vez em três anos, eu estava de pé. Pela primeira vez, eu sorri. Levaram a Muxima para uma sala atrás do altar. Eu fui atrás, não sei porquê. Fiquei encostada à porta, de vestido preto e bolsa no ombro. Ela estava sentada num banco de madeira, com o vestido espalhado à volta como uma nuvem rasgada. A mamã de um lado, a tia Beta do outro, duas senhoras de lenço na cabeça a segurar-lhe as mãos. Chorava sem barulho, com um pano dobrado sobre a boca, como quem tenta guardar uma coisa maior do que o corpo. A tia Beta disse: - Calma, minha filha, calma. Isto passa. Quem foi? Quem fez isto? Ninguém olhou para mim. Como sempre. Até que a Muxima levantou a cabeça. Os olhos dela encontraram os meus por cima dos ombros das mais-velhas. E o choro parou. Parou de repente, como uma torneira. Ela sorriu. Um sorriso pequeno. Frio. Calculado. Aquele sorriso arrepiou-me mais do que todos os gritos. E foi nesse momento que percebi: aquela mulher não estava quebrada. Estava a planear. Voltei para casa sozinha, de vestido preto, a segurar a bolsa contra o peito. Ninguém me ofereceu boleia. Ninguém me perguntou se eu estava bem. As mensagens começaram a chegar. Primas, tias, vizinhas. "Estás doida?" "Que vergonha, Ndalu." "A tua mãe não para de chorar." Desliguei o telemóvel. Liguei outra vez. Desliguei. Sentei-me na cama e fiquei a olhar para a parede. Eu devia sentir-me vingada. Devia sentir-me leve. E senti, durante dois minutos. Depois ficou só o vazio, e o eco da voz dela, e aquela frase a rodar na minha cabeça: Vais pagar por isto. O que me deu a entendeu naqueles momento que, isso só estava a começar.