A FILHA DA MINHA MADRASTA
Episódio 3
Depois daquele beijo à porta do meu quarto, eu sabia que não ia conseguir dormir. E não dormi mesmo.
Fiquei deitado, de olhos abertos, a olhar para o teto, a pensar naquela miúda, a reviver aquele momento mil vezes na cabeça. O toque dos lábios dela, o cheiro do perfume dela, a voz baixinho a chamar-me de maninho. Eu estava perdido ya, só pode.
Por volta das 7 horas, ouvi barulho na cozinha. Levantei-me, cuidei da higiene, vesti uma camisola e desci.
A tia Fátima estava lá, a fazer o matabicho, e o meu pai estava sentado à mesa, a mexer no telefone.
A tia Fátima disse, ao me ver:
- Bom dia, Ivan! Dormiste bem?
Eu respondi, a mentir:
- Dormi sim bem, e a tia Fátima?
Ela sorriu, e disse:
- Tudo ótimo. A Luciana ainda está a dormir, deve estar cansada da viagem.
Eu assenti e me sentei à mesa. O meu pai olhou para mim, e disse:
- Ivan, hoje vou levar a Fátima pra fazer umas coisinhas. Ficamos fora o dia todo. Tu ficas com a Luciana, está bem? Faça ela se sentir em casa, até porque aqui é casa dela também.
O meu estômago apertou. Ficar sozinho com a Luciana, a casa toda para nós dois? Isso era um convite ao desastre, até fiquei com medo.
Eu respondi, a tentar disfarçar:
- Tá bem, papá. Podem ir descansados.
Eles saíram por volta das 9 horas. Eu fiquei na sala, a ver televisão, a tentar não pensar na Luciana. Mas era impossível.
Passados uns minutos, ouvi passos na escada. Ela desceu, com um vestido curto e leve, o cabelo solto, e aquele sorriso que me fazia perder a cabeça.
Ela disse, com aquela voz doce:
- Bom dia, maninho. Dormiste bem?
Eu respondi, sem olhar para ela:
- Dormi. E tu?
Ela se aproximou, se sentou ao meu lado e disse:
- Dormi pouco. Fiquei a pensar em ti.
Eu fiquei sem saber o que dizer. Ela olhou para mim, e continuou:
- Tu foges de mim?
Eu respirei fundo, e disse:
- Luciana. Tu vais ser a minha irmã. O meu pai vai casar com a tua mãe.
Ela riu, um riso curto, e disse:
- Bebê, nós não somos irmãos. E o casamento ainda não aconteceu, leva tempo. Porque é que estás a complicar?
Eu respondi, a tentar manter a calma:
- Não é complicar, é ter respeito pela minha família. Pelo meu pai. Pela tua mãe.
Ela se aproximou mais, pousou a mão na minha perna, e disse:
- E o que é que o teu coração diz? O que é que o teu corpo diz?
Eu não respondi. Ela tinha razão. O meu corpo gritava por ela. Mas a minha cabeça dizia que era errado.
Ela se levantou, e disse:
- Vou tomar banho. Se mudares de ideias, sabes onde me encontrar.
E subiu as escadas, devagar, com aquele andar que me me provocava.
Fiquei ali, sozinho na sala, a lutar contra mim mesmo. Eu queria. Queria mais do que qualquer coisa. Mas sabia que, se cedesse, ia destruir a minha família. O meu pai era feliz com a tia Fátima. E eu não podia estragar isso.
Na minha indecisão, passaram-se duas horas. Eu fiquei no quarto, a tentar distrair-me com o telefone. Mas a cabeça não parava.
Por volta das 13 horas, ouvi a porta do quarto da Luciana a abrir. Ela saiu, enrolada numa toalha, com o cabelo molhado, e foi para a cozinha. Eu desci, sem saber porquê. Encontrei-a a beber um copo de água, encostada ao balcão.
Ela olhou para mim, e sorriu.
Ela disse:
- Vieste fazer o quê? Eu te convidei para subir e você não foi.
Eu respondi, com a voz a tremer:
- Lu, Lu, Luciana, precisamos de falar.
Ela pousou o copo, e se aproximou.
Ela disse:
- Falar? Ou fazer?
Eu respirei fundo, e disse:
- Eu não posso trair o meu pai. Nem a tua mãe.
Ela olhou para mim, e disse:
- Ivan, eu não te estou a pedir para trair ninguém. Estou a pedir para seres homem.
Ela se aproximou mais, e pousou a mão no meu peito. Eu senti o calor do corpo dela, o cheiro do sabonete, a maciez da toalha.
Ela disse, baixinho:
- Diz-me que não me queres. Diz-me, e eu nunca mais te toco.
Eu olhei para ela. Os olhos dela estavam fixos nos meus. E eu não consegui mentir.
Eu disse, com a voz a falhar:
- Eu, eu, eu, quero, mas...
Ela sorriu, e disse:
- Errado é viver uma vida ignorando o que você quer, eu não ficarem para sempre aqui em Luanda.
Ela encostou os lábios nos meus. Desta vez, não foi um beijo curto. Foi um beijo longo, profundo, cheio de desejo. Eu correspondi. Não consegui resistir. As minhas mãos percorreram as costas dela, e a toalha caiu no chão.
Ficamos ali, na cozinha, abraçados, a beijar, como se o mundo fosse acabar. Eu sabia que aquilo era errado. Mas, naquele momento, só conseguia pensar nela. No corpo dela. No prazer que ela me dava.
De repente, ouvimos um barulho. Um carro a chegar. O meu pai e a tia Fátima tinham voltado mais cedo. Nós nos afastamos, em pânico. A Luciana pegou na toalha, correu para o quarto, e eu fiquei na cozinha, a tentar recuperar a compostura.
O meu pai entrou, todo sorridente, e disse:
- Ivan, chegamos mais cedo. Trouxemos comida. Onde está a Luciana?
Eu respondi, com a voz a tremer:
- Está no quarto, a descansar, acho eu.
Ele assentiu, e foi para a sala. A tia Fátima olhou para mim, e perguntou:
- Ivan, estás bem? Estás com uma cara estranha.
Eu respondi, a mentir:
- Estou bem, tia. Só um pouco cansado.
Ela sorriu, e foi atrás do meu pai.
Eu fiquei ali, com o coração a bater forte, a perceber que aquilo tinha sido por pouco. Muito pouco, estava tudo a acontecer muito rápido, mas, eu queria mais e mais...
Naquela noite, não consegui dormir outra vez. Fiquei a pensar na Luciana, no que tínhamos feito, e no risco que corremos. Eu sabia que aquilo não podia continuar. Mas também sabia que não conseguia parar.
No dia seguinte, acordei cedo, tomei banho, e desci para a cozinha. A Luciana já estava lá, sentada à mesa, a comer uma torrada. Vestia uma camisola larga que lhe cobria as coxas, e nada mais. O cabelo estava solto, e ela tinha aquele ar de quem acabou de acordar. O meu pai e a tia Fátima ainda estavam a dormir.
Ela olhou para mim, e sorriu.
Ela disse:
- Bom dia, maninho. Dormiste bem?
Eu respondi, a tentar parecer normal:
- Dormi. E tu?
Ela disse, com aquele sorriso maroto:
- Dormi como um anjo. Sonhei contigo.
Eu fiquei parado, sem saber o que dizer. Ela pegou na chávena de chá, deu um gole, e disse:
- Sabes, Ivan, eu estive a pensar. Tu tens razão. Isto é complicado. Mas também é excitant€, não é?
Eu respondi, a tentar manter a calma:
- Luciana, isto não é um jogo.
Ela riu, um riso curto, e disse:
- Claro que é. E tu estás a jogar muito bem. Ou será que estás a perder? Gostar perder?
Ela se levantou, passou por mim, e subiu as escadas. Eu fiquei ali, parado, com a cabeça a ferver. Ela estava a brincar comigo. E eu estava a gostar. E odiava-me por isso.
Mais tarde, fui ao quarto buscar o telefone, e encontrei um bilhete na porta do meu quarto. Estava escrito à mão, com uma letra bonita: "Se me queres, sabes onde estou. Mas se não vens, isso entre, ACABA" Eu li aquilo três vezes. Sabia que era uma provocação. Sabia que ela estava a testar-me. E sabia que, se eu fosse, estava perdido.
Fui porque não sou burro, bati à porta do quarto dela. Ela abriu, com aquele sorriso de sempre, e disse:
- Sabia que ias vir.
Eu respondi, com a voz firme:
- Vim dizer-te que isto tem que acabar.
Ela se aproximou, pousou a mão no meu rosto, e disse:
- Acabar? Com a permissão de quem? Nós nem começamos, Ivan. E tu sabes disso.
Ela me puxou para dentro e fechou a porta.