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O SEGREDO DA MINHA IRMÃ

Episódio 3
Sentei-me na cama e fiquei a olhar para a parede. Eu devia me sentir realizada. Devia sentir-me leve. E senti, durante dois minutos. Depois ficou só o vazio, e o eco da voz dela, e aquela frase a rodar na minha cabeça: Vais pagar por isto. O que me deu a entender naqueles momentos é que isto só estava a começar. O telemóvel vibrou outra vez. Eram 23 horas. Eu olhei para o ecrã. Era o Edmilson. O meu estômago deu um nó. Três anos sem ele me escrever. Três anos sem ver o nome dele no meu ecrã. Abri a mensagem com as mãos a tremer. Ele escreveu: - Obrigado por me abrires os olhos. Mas preciso de te perguntar uma coisa. Tu viste o vídeo até ao fim? Seguiu um ficheiro. 1 minuto. O mesmo carro, mesmo vídeo. Eu nunca tinha visto aquilo. No quarto da Muxima, eu parei o vídeo na frase "depois do casamento, largo". Não aguentei mais. Mas agora, ali, sozinha no meu quarto, com o coração na boca, carreguei em play. O Kiala, no vídeo, riu-se baixinho e perguntou: - E a tua irmã? Não sentes nada por ela? A Muxima encostou a cabeça ao banco, olhou para o teto do carro, e respondeu com uma calma que me gelou o sangue: - A Ndalu? A Ndalu foi ideia da mamã. Parei de respirar. - Ela disse-me: "Tira ele dela. Ela é fraca, aguenta." Eu fui só uma filha obediente. O ecrã escureceu. Ficou só o meu reflexo no vidro preto: uma mulher de vestido de luto, com a boca aberta e uma lágrima a escorrer pelo queixo. A mamã. A mamã que me chamava mesquinha. A mamã que disse "deixa os dois serem felizes". A mamã que me obrigou a vestir preto no casamento da ladra. A mamã que sempre soube. Atrás de mim, a porta do quarto abriu devagar. Eu nem tinha ouvido o carro chegar. Virei. A minha mãe estava ali, parada na entrada, ainda de pano de festa, de olhos inchados, com o telemóvel na mão. O ecrã dela estava aceso: o mesmo vídeo e, por baixo, uma mensagem da Muxima. "Ela já viu o fim, mãe." Ela olhou para mim. Eu olhei para ela. E, pela primeira vez na vida, a minha mãe não conseguiu sustentar o meu olhar. Ela disse, com a voz a quebrar: - Ndalu... filha... Deixa-me explicar. Eu levantei-me, devagar. Sem lágrimas. Sem tremer. Eu disse, com uma voz que nem eu reconheci: - Explicar? Explicar o quê, mãe? Que foste tu que mandaste a Muxima roubar o meu namorado? Que foste tu que me obrigaste a ser dama de honra? Que foste tu que sempre soubeste de tudo? Ela respondeu, a chorar: - Ndalu, eu só queria o melhor para ti. O Edmilson não era homem para ti... Eu disse, a gritar: - Não era homem para mim?! Então quem é que era? O Kiala? Quem, mãe? Diz-me! Ela não respondeu. Só chorava. Eu continuei, com a voz a tremer de raiva: - Sabes o que é que eu percebi hoje? A guerra nunca foi entre mim e a Muxima. Foi sempre contra a minha própria casa. Contra a minha própria mãe. Foste tu que me traíste. Foste tu que me vendeste. E agora vais pagar. Mas antes que eu pudesse dizer mais, a minha mente voltou atrás. Voltou àquele dia. O dia da apresentação. O dia em que a família do noivo vai à casa da noiva para oficializar, um momento de alegria. E, depois, vem o pedido formal, também na casa da mulher, com o anel e tudo. Na nossa casa, a apresentação da Muxima e do Edmilson foi há dois anos. Eu ainda me lembro como se fosse hoje. A casa cheia. As tias todas de pano novo. O cheiro de calulu no ar. O meu pai sentado na cadeira grande, todo orgulhoso. A minha mãe a chorar de emoção. E eu? Eu estava ali. Sentada num canto, com um vestido que a Muxima me emprestou, e um sorriso colado na cara. Eu vi o Edmilson entrar. Ele estava lindo. Fato escuro, camisa branca, aquele sorriso que eu conhecia tão bem. Ele cumprimentou os meus pais, cumprimentou os tios, cumprimentou os vizinhos. E depois, quando os olhos dele encontraram os meus, ele desviou o olhar. Doeu. Doeu como uma faca no peito. A Muxima estava ao lado dele, radiante. Com um vestido vermelho, o cabelo bem feito, e um sorriso de quem tinha ganhado a lotaria. Ela segurava o braço dele como se ele fosse um troféu. E era. Ele era o meu troféu. O homem que eu amei. O homem que ela me roubou. Naquele dia, o tio do Edmilson levantou-se e disse: - Em nome da família do Edmilson, viemos pedir a mão da Muxima. Queremos que ela seja a nossa nora, a nossa filha, a nossa futura esposa. Todos bateram palmas. As tias gritaram de alegria. A minha mãe chorou. O meu pai acenou com a cabeça, todo orgulhoso. E eu? Eu bati palmas também. Com o coração a sangrar. Com a alma a gritar. Mas bati palmas. Porque era o que se esperava de mim. Depois veio o pedido. O Edmilson ajoelhou-se, tirou o anel do bolso, e pediu a Muxima em casamento. Ela disse "sim", a chorar, e todos aplaudiram outra vez. E eu, no meu canto, com o mesmo sorriso falso, a ver o amor da minha vida a prometer-se a outra. Aqueles dias foram os mais longos da minha vida. Ver o amor da minha vida a prometer-se a outra. Ver a minha irmã a roubar o meu futuro. Ver a minha família a aplaudir. Foi uma tortura. Uma tortura lenta, silenciosa, que ninguém via. E o casamento? O casamento era a cereja no topo do bolo. Era o dia em que eu ia ter que ficar no altar, a segurar as flores, a ver o Edmilson a dizer "sim" à Muxima. Era o dia em que eu ia ter que assistir, de pé, à destruição completa da minha felicidade. Eu não podia suportar aquilo. Não podia. E foi por isso que enviei o vídeo. Voltei ao presente. A minha mãe ainda estava ali, de joelhos, a chorar. Ela disse, com a voz a tremer: - Ndalu, perdoa-me. Eu errei. Eu pensei que estava a fazer o melhor. O Edmilson... ele não era para ti. Tu merecias mais. A Muxima... ela precisava dele. Eu respondi, com uma frieza que me assustou: - Precisava? Ela precisava do dinheiro dele, mãe. Ela mesmo disse no vídeo. Ela nunca o amou. Ela só o usou. E tu ajudaste. Tu vendeste a tua própria filha por causa da tua filha favorita. Ela chorou mais alto. Agarrou-se aos meus pés. Pediu perdão. Mas eu não senti nada. Só um vazio imenso. Um vazio que me consumia por dentro. Eu disse: - levanta, mãe. E sai do meu quarto. Não quero ver a tua cara. Ela levantou-se, devagar, com os olhos vermelhos, e saiu. Fechei a porta e chorei. Chorei como nunca chorei na vida. Chorei pela menina que fui. Chorei pela mulher que me tornei. Chorei pela família que perdi. Mas depois, enxuguei as lágrimas. Olhei ao espelho. E disse para mim mesma: - Ndalu, tu não és mais a sombra. Tu és a tempestade. E eu sabia que a Muxima não ia ficar por ali. Ela ia vingar-se. A minha mãe também. E o Edmilson? Ele ia voltar? Ou ia desaparecer para sempre? Mas uma coisa era certa: eu já não tinha nada a perder. E quando uma mulher não tem nada a perder, ela torna-se perigosa.