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O SEGREDO DA MINHA IRMÃ

Episódio 4
A noite foi longa, não dormi, fiquei deitada a olhar para o teto com a cabeça a ferver. O que eu tinha feito não tinha volta, eu sabia disso, mas estranhamente não me sentia culpada, me sentia livre. Livre da Muxima, livre da minha mãe, livre daquela família que sempre me tratou como sombra. O sol nasceu devagar, dourado, a entrar pela janela do meu quarto. Eu me levantei, tomei banho, vesti uma camisa simples e umas calças de ganga. Nada de vestido preto, nada de dama de honra. Hoje eu era só a Ndalu. Desci para a cozinha por volta das 7 horas. A minha mãe estava lá, de costas, a bater o funge para o meu pai logo de manhã. Ela não se virou quando eu entrei. O silêncio entre nós era pesado, como se houvesse um muro no meio da cozinha. Eu abri geladeira, peguei numa garrafa de água, e me sentei à mesa. A minha mãe disse, sem se virar: - A tua irmã não dormiu. Passou a noite a chorar no quarto. Eu respondi, com a voz fria: - E eu? Quantas noites é que eu passei a chorar por causa dela, mãe? Tu contaste? Ela não respondeu. Continuou a bater o funge. O silêncio voltou, mais pesado ainda. Foi então que a Muxima apareceu na porta da cozinha. Estava de calças simples e uma camisola preta, com o cabelo apanhado num rabo de cavalo, sem maquilhagem, sem sorriso. Os olhos dela estavam vermelhos, inchados de tanto chorar. Mas havia algo neles que me assustou, não era tristeza, era fúria. Ela disse, com a voz rouca: - Bom dia. Eu respondi, sem olhar para ela: - Bom dia. Ela se sentou à mesa, à minha frente. A minha mãe pousou o prato dela de comida à mesa, e se sentou também. Nós três ali, à mesma mesa, como se fôssemos uma família normal. Mas não éramos. Éramos três estranhas que partilhavam o mesmo teto. A Muxima disse: - Sabes, Ndalu, eu estive a pensar. Tu achas que ganhaste, não é? Achas que me destruíste, tu fizeste a família gastar muito dinheiro para o casamento, tudo estragou. Eu respondi, sem levantar os olhos: - Eu não acho nada. Eu só fiz o que tinha que fazer. Ela riu, um riso curto, amargo, mas sei lá, se ela estava aí, é porque não estava a lhe doer, ela estaria chorar durante dias no quarto, mas estava aí, comendo. Ela disse: - Fizeste o que tinhas que fazer. Destruíste o meu casamento. Me humilhaste na frente de toda a gente. E agora achas que está tudo bem? Eu levantei os olhos e olhei para ela. Eu respondi: + E tu? Roubaste o namorado da tua própria irmã. Me humilhaste durante três anos. E agora achas que está tudo bem? A minha mãe interrompeu, com a voz a tremer: - Ndalu, Muxima, por favor, chega. Somos família, vamos aproveitar isso para estar uma no lado da outra, chega de guerra. Eu e a Muxima respondemos ao mesmo tempo, em coro: - Família? A minha mãe se calou. A Muxima olhou para mim, e eu vi nos olhos dela algo que nunca tinha visto antes. Ódio. Ódio puro. Ela disse, baixinho, só para mim: - Estás a me ver aqui e a pensar que estou bem? V0u te destruir, Ndalu. Não importa quanto tempo leve. Vou te fatigar. Eu respondi, com a mesma calma: - Tenta, Muxima. Tenta. O resto do dia passou devagar. Eu me tranquei no meu quarto, ela se trancou no dela. A minha mãe andava pela casa como uma alma solta, sem saber o que fazer. Ao fim da tarde, bateram à porta. Eu não me levantei. Ouvi a minha mãe abrir, ouvi vozes na sala, e depois ouvi a porta do quarto da Muxima abrir e fechar. Pouco depois, a Muxima bateu à minha porta. Ela disse, do outro lado: - Ndalu, abre. Temos visita. Eu abri. Na sala estava a tia Beta, com o lenço azul na cabeça, e mais duas senhoras da igreja. A Muxima estava sentada no sofá, com um lenço na mão, a limpar os olhos. A tia Beta olhou para mim com aquele olhar de julgamento. A tia Beta disse: - Ndalu, senta-te. Vamos falar. Eu me sentei na cadeira, à frente delas. A tia Beta disse: - Ndalu, a tua irmã contou-nos tudo. O que fizeste foi muito grave. Destruíste o casamento dela. Envergonhaste a família. Isso não se faz. Eu respondi, com a voz firme: - Tia, a Muxima roubou o namorado, vocês todos sabiam disso, mas nunca olham nessa vertente, só me julgam. E pra piorar, ela traiu o Edmilson com o Kiala, ex dela. Ela só estava com ele pelo dinheiro. Eu só mostrei a verdade. Uma das senhoras disse: - Mesmo assim, Ndalu. Isso não se faz. A família lava a roupa suja em casa. Não se expõe o nome da família assim, a Muxima te traiu, mas a culpa não é só dela, foi também dele, ele escolheu ela mesmo estando contigo, isso também é traição, filha. Eu respondi: - E quando a minha própria mãe a ajudou? Isso não foi expor o nome da família? A tia Beta olhou para a minha mãe, que estava encostada à parede, de braços cruzados, sem dizer nada. A tia Beta disse: - A tua mãe errou. Mas tu também erraste. E agora tens que pedir perdão à tua irmã, vocês estão aqui em casa a pensar que nada está a acontecer, mas nós estamos a resolver um problema grande, isso foi um grande desrespeito para a família do noivo. Eu olhei para a Muxima. Ela estava sentada no cadeirão, com aquele lenço na mão, a fingir que chorava. Mas eu vi o sorriso nos olhos dela. Um sorriso de vitória. Eu disse, com a voz a tremer de raiva: - Pedir perdão? Eu? Ela roubo o meu namorado, traiu o noivo, e agora sou eu que tenho que pedir perdão? A Muxima disse, com a voz de vítima: - Ndalu, eu sei que errei. Mas tu destruíste a minha vida. O Edmilson nunca mais vai olhar para mim. A família está dividida. E tudo por tua causa. Eu me levantei, com as mãos a tremer. Eu disse: - Tudo por minha causa? Tu tens coragem, Muxima. Tens mesmo coragem. Ela disse, a chorar: - Vês, tia? Vês como ela é? Ela não tem coração. A tia Beta se levantou e disse: - Ndalu, ou pedes perdão à tua irmã agora, ou vais ter que sair desta casa. O silêncio caiu na sala. Todos olharam para mim. A minha mãe, a tia Beta, as senhoras da igreja, e a Muxima, com aquele sorriso escondido. Eu olhei para a Muxima, e disse: - Não vou pedir perdão. Não tenho nada que pedir perdão. Se tiver que sair desta casa, saio. Mas não me curvo a ela. A tia Beta abanou a cabeça, dececionada. A Muxima continuou a chorar, mas eu vi o sorriso dela por trás do lenço. Ela tinha ganhado. Tinha me expulsado de casa. Eu virei as costas e fui para o meu quarto. Comecei a arrumar as minhas coisas. A minha mãe apareceu à porta, a chorar. Ela disse: - Ndalu, filha, por favor, não faças isso. Pede perdão à tua irmã. É só uma palavra. Eu respondi, sem olhar para ela: - Mãe, tu já me traíste uma vez. Não me peças para me trair outra vez. Ela ficou ali parada, a chorar, sem saber o que dizer. Eu continuei a arrumar as minhas coisas. Não tinha muito. Umas roupas, uns livros, uns documentos. Meti tudo numa mala antiga. Depois peguei no telefone, e liguei ao Edmilson, não tinha para quem ligar naquele momento. Ele atendeu logo. Ele disse: - Ndalu? Está tudo bem? Eu respondi, com a voz a tremer: - Edmilson, preciso de falar contigo. Amanhã, às 10 horas, na Marginal. Ele disse: - Estarei lá. Desliguei. Peguei na mala. Passei pela sala, onde a Muxima ainda estava sentada com as senhoras da igreja, a fingir que chorava. Ela olhou para mim, e sorriu. Um sorriso pequeno, frio, calculado. Eu não disse nada. Abri a porta e saí. A rua estava fria. O céu estava escuro. E eu não sabia para onde ia. Mas sabia que não ia voltar. Não ia voltar àquela casa. Não ia voltar àquela família. Não ia voltar àquela vida.