O SEGREDO DA MINHA IRMÃ
Episódio 5
Saí de casa com a mala na mão e o coração pesado. A rua estava escura, as luzes dos postes mal iluminavam o passeio, e eu não sabia para onde ia.
Só sabia que não podia voltar atrás. Caminhei até à paragem, esperei pelo motoqueiro, e pedi para me deixar no bairro da Nzinga, a minha amiga de infância.
Ela sempre foi a única pessoa que nunca me julgou, a única que sabia a verdade sobre a Muxima e o Edmilson, e que sempre me disse para não me calar.
Cheguei à casa dela por volta das 20 horas. Bati à porta, e ela abriu. Quando me viu, com a mala na mão e os olhos vermelhos, não fez perguntas. Só me abraçou e disse:
- Entra, mana. Esta casa é tua.
Eu entrei, pousei a mala no chão, e me sentei. A Nzinga foi à cozinha, trouxe um copo de água e um prato de comida. Eu não tinha fome, mas ela insistiu.
Ela disse:
- Come, Ndalu. Depois me contas.
Eu respondi, com a voz a tremer:
- Nzinga, eu já não tenho casa. A Muxima conseguiu.
Ela se sentou ao meu lado e me segurou a mão.
Ela disse:
- Calma. Vais ficar aqui o tempo que precisares. E amanhã, vamos resolver isso.
Naquela noite dormi pouco. Fiquei deitada no quarto, a olhar para o teto, a pensar no Edmilson, fiquei a pensar se ele estava chateado comigo.
No dia seguinte, acordei cedo. Tomei banho, vesti uma camisa branca e umas calças escuras. A Nzinga fez o matabicho, e enquanto comíamos, ela me disse:
- Ndalu, eu vou sair para o mercado. Vou demorar umas horas, disseste que te encontrarias com o Edmilson, ele pode vir aqui, fica à vontade. Se precisares de algo, liga-me.
Eu respondi:
- Obrigada, Nzinga. Não sei o que seria de mim sem ti.
Ela sorriu, pegou na pasta, e saiu. Eu fiquei sozinha na casa, a olhar para o relógio. Faltavam quinze minutos para as 10 horas. O Edmilson ia chegar a qualquer momento.
Ele bateu à porta às 10 horas em ponto. Eu abri. Ele estava ali, os olhos cansados, o rosto marcado. Ele me olhou, e por um momento ficamos os dois em silêncio.
Ele disse, com a voz baixa:
- Ndalu. Obrigado por me receberes.
Eu respondi, me afastando para o deixar entrar:
- Entra. A Nzinga saiu, estamos sozinhos.
Ele entrou, olhou à volta, e se sentou. Eu me sentei na cadeira, à frente dele. Ficamos em silêncio durante uns segundos, até que eu disse.
Eu:
- Olha, nem sei o que dizer, não sei mesmo.
Ele:
- Ndalu, eu também não sei por onde começar. Tanta coisa aconteceu.
Eu respondi:
- Éh, infelizmente.
Ele respirou fundo, olhou para o chão, e depois para mim.
Ele disse:
- Eu estou destruído, Ndalu. A minha família está dececionada comigo. Gastaram muito dinheiro no casamento, e agora nada aconteceu. Todos me chamam de burr0, porque troquei você com airmã. Eles dizem que eu perdi a melhor coisa que me aconteceu.
Eu respondi, com a voz firme:
- E não é verdade? Não foste tu que trocaste?
Ele fechou os olhos, como se estivesse a tentar conter as lágrimas.
Ele disse:
- Fui eu. Fui eu que troquei. E todos os dias me arrependo disso. Todos os dias acordo e penso em ti. Penso no que perdeste por minha causa. Penso no que eu perdi por ser cego.
Eu respondi, com o coração a doer:
- Edmilson, tu me trocaste pela minha irmã. Tu acreditaste nas mentiras dela. Tu me deixaste sozinha com a minha dor.
Ele se levantou, veio até à minha frente, e se ajoelhou. Olhou para mim com os olhos vermelhos, e disse:
- Ndalu, eu sei que errei. Eu sei que te magoei. Mas eu ainda te amo. Sempre te amei, acredita. E se tu me deres uma chance, eu prometo que vou passar o resto da minha vida a tentar reparar o que fiz.
Eu senti as lágrimas a subir. Olhei para ele, para aquele homem que eu amei durante anos, que me traiu, que me destruiu, mas que ainda estava ali, ajoelhado à minha frente, a pedir perdão.
Eu disse, com a voz a falhar:
- Edmilson, eu não sei se consigo confiar em ti outra vez, e também, ainda é muito cedo.
Ele disse:
- Cedo pra tentar me resolver com a mulher que eu amo? Não. Eu sei que não é fácil. Mas eu estou disposto a esperar. A fazer tudo por ti.
Ele se aproximou, devagar, e tentou me beijar. Eu virei o rosto.
Eu disse:
- Não, Edmilson. Não faças isso.
Ele parou, mas não se afastou. Ficou ali, com os olhos nos meus, e tentou outra vez. Desta vez, eu não resisti. Eu cedi. Foi um beijo curto, mas intenso. Um beijo que trouxe de volta tudo o que eu sentia por ele, tudo o que eu tentei enterrar.
Mas depois, eu parei. Afastei-me, e dei-lhe uma chapada no rosto. Ele ficou em choque, com a mão na cara.
Eu disse, com a voz a tremer:
- Porquê que estás a me beijar? Não faz isso. Você agora é homem da minha irmã.
Ele tentou se explicar:
- Ndalu, eu já não sou nada da Muxima. O casamento não aconteceu. Eu não devo nada a ela.
Eu respondi, com as lágrimas a cair:
- F0da-se, já sofri muito, Edmilson. Já sofri muito por tua causa.
Ele se aproximou outra vez, e me abraçou. Eu chorei no ombro dele, e depois, sem pensar, beijei ele, dessa vez eu o beijei. Um beijo longo, profundo, cheio de dor e desejo. Ficamos ali, abraçados, a beijar, como se o mundo fosse acabar.
Foi então que bateram à porta. Com muita força. Nós dois nos afastamos, assustados.
Eu disse, num sussurro:
- Quem é?
Do outro lado da porta, uma voz que eu conhecia bem. A voz da Muxima.
Ela gritou:
- Ndalu, abre! Eu sei que estás aí com o Edmilson! Abre a porta, sua cobr@!
O Edmilson ficou branco. Ele olhou para mim, em pânico.
Ele disse, baixinho:
- Não quero ver ela. Não quero falar com ela.
Ele correu para trás da porta, e se escondeu ali, encostado à parede.
Eu fiquei parada no meio da sala, com o coração a bater forte, sem saber o que fazer. A Muxima continuava a bater à porta, cada vez mais forte.
Ela gritou:
- Abre, Ndalu! Eu sei que ele está aí! Abre, ou eu arrombo esta porta!