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O SEGREDO DA MINHA IRMÃ

Episódio 6
A Muxima continuava a bater à porta, cada vez mais forte. O Edmilson estava escondido atrás da porta, com o corpo encostado à parede, a tremer tipo um burr0, tipo alguém que cometeu. Eu sabia que não podia ficar ali parada. Respirei fundo, fui até à porta, e abri. A Muxima entrou como um furacão, me empurrou. Passou por mim, olhou para a sala, para a cozinha, para o corredor. Os olhos dela estavam vermelhos, o cabelo desfeito, e as mãos a tremer. Ela procurou por todo o lado, mas não olhou atrás da porta. O Edmilson estava ali, a um passo dela, mas ela não viu. Ela disse, com a voz rouca: - Onde é que ele está, Ndalu? Eu sei que ele está aqui. Eu respondi, com uma calma que me assustou: - Ele não está aqui, Muxima. Acho que estás a ficar maluca. Ela olhou para mim, desconfiada, mas não insistiu. Ficou ali parada no meio da sala, com os braços cruzados, a olhar para o chão. Depois, levantou a cabeça, e olhou para mim. Não era raiva. Não era ódio. Era cansaço. Ela disse, com a voz baixa: - Olha, Ndalu, eu sei que não bato bem, e apesar de tudo sei que te magoei. Nada do que eu fale ou faça vai mudar o passado. Se me arrependo, eu não sei. Mas sinto muito. Sou uma péssima irmã. Mas acredita, eu te amo. Eu fiquei em silêncio, sem saber o que dizer. Ela continuou: - E um conselho, não volta com o homem que te traiu, nunca. Ele não vale a pena. Nenhum homem que te troca por outra vale a pena. Ela virou as costas e saiu. Não bateu a porta. Apenas saiu, devagar, como se estivesse a carregar um peso enorme nos ombros. Eu fiquei ali parada, no meio da sala, com o coração aos saltos. O Edmilson saiu de trás da porta, devagar, com os olhos arregalados. Ele disse, num sussurro: - Ela... ela foi-se embora? Eu respondi, sem olhar para ele: - Foi. E acho que devias ir também. Ele tentou se aproximar, tentou me abraçar, mas eu me afastei. Ele disse: - Ndalu, por favor, não faças isso. Nós podemos recomeçar. Eu respondi, com a voz firme: - Edmilson, a Muxima tem razão. Tu me trocaste por ela. Tu me traíste. E eu não posso voltar com o homem que me traiu. Não posso. Já sofri muito. Ele ficou ali parado, com os olhos a brilhar, sem saber o que dizer. Depois, pegou no casaco, e se dirigiu para a porta. Antes de sair, olhou para mim uma última vez. Ele disse: - Eu entendo, Ndalu. Eu mereço isso. Mas quero que saibas que eu te amo. E vou amar-te para sempre. Eu respondi, com o coração a doer: - Adeus, Edmilson. Ele saiu. Fechei a porta. E, pela primeira vez em muito tempo, me senti em paz. Não era a paz que eu queria, mas era a paz que eu precisava. Pouco depois, o telemóvel vibrou. Era o meu pai. Eu atendi. Ele disse, com a voz calma: - Ndalu, filha, como estás? Eu respondi, com a voz a tremer: - Estou bem, pai. Estou na casa da Nzinga. Ele disse: - A tua mãe contou-me tudo, não existe pessoa nesse mundo com direito de te expulsar dessa casa. Eu sei o que a Muxima fez. Eu sei o que a tua mãe fez. E eu sei o que fizeste, mas com razão. Eu respondi, com medo: - E estás chateado comigo? Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, disse: - Não, filha. Eu não estou zangado contigo. Eu estou zangado comigo mesmo, por nunca ter dito nada. Por nunca ter te defendido. Eu falhei contigo, Ndalu. Eu senti as lágrimas a subir. Eu disse: - Pai, não foi culpa tua. Ele disse: - Foi, sim. Eu devia ter estado do teu lado. Mas agora quero reparar isso. Volta para casa, filha. Vamos resolver tudo. Eu respirei fundo, e disse: - Pai, eu agradeço, mas preciso de um tempo. Preciso de ficar sozinha, de esfriar a cabeça. Vou ficar uns dias na casa da Nzinga. Depois, se der, volto. Ele disse, com a voz a tremer: - Está bem, filha. Toma o teu tempo. Mas sabe que a tua casa é sempre a tua casa. E que eu te amo. Eu respondi, a chorar: - Eu também te amo, pai. Obrigada. Desligou. Sentei e chorei. Chorei de alívio. Chorei porque, pela primeira vez, alguém da minha família tinha ficado do meu lado. Chorei porque, apesar de tudo, eu ainda tinha um pai. Algumas horas depois, a Nzinga voltou do mercado. Ela abriu a porta, e parou. Ficou ali, parada na entrada, com os sacos nas mãos e a boca aberta. Eu estava na cozinha, a cozinhar. Estava a fazer a minha comida favorita. A música estava alta, uma kizomba antiga que a minha mãe costumava cantar. Eu estava a cantarolar, a mexer a panela, e nem ouvi a Nzinga entrar. Ela disse, com um sorriso enorme: - Ndalu? És tu? Eu me virei, com uma colher na mão, e sorri. Eu respondi: - Sou eu, mana. Estou a fazer o jantar. Vais comer comigo? Ela pousou os sacos no chão, correu para mim, e me abraçou com força. Ela disse, a rir: - Amor, tu estás feliz! Estás mesmo feliz! Eu respondi, com os olhos a brilhar: - Estou, Nzinga. Estou feliz. Pela primeira vez em muito tempo, estou feliz. Ela me olhou, com as lágrimas nos olhos, e disse: - Então, vamos comer. E depois me contas tudo. Nós duas nos sentamos no tapete da sala, comemos, rimos, e falamos da vida. Falamos do passado, do presente, e do futuro. E, pela primeira vez, eu senti que o futuro era meu. Que eu podia escolher o que fazer com ele. Que já não era a sombra de ninguém. Era a Ndalu. E isso bastava.