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A FILHA DA MINHA MADRASTA

Episódio 8
A tia Fátima olhou para a filha, e disse: - Luciana, arruma as tuas coisas. Vais para Benguela amanhã de manhã. Eu fiquei parado no meio do quarto, sem saber o que fazer. O meu pai olhou para mim, com o rosto vermelho de raiva, e disse: - Ivan, veste algo e vai para o teu quarto. Agora. Eu respondi, com a voz a tremer: - Pai, eu preciso de falar contigo. Ele disse, a apontar para a porta: - Não quero conversa. Vai para o teu quarto. Eu saí do quarto da Luciana, com o coração despedaçado. Mas não fui para o meu quarto. Fui atrás do meu pai. Ele entrou no escritório, e eu entrei atrás dele, e fechei a porta. Eu disse, com a voz firme: - Pai, eu preciso de te dizer uma coisa. Ele respondeu, sem olhar para mim: - Ivan, não há nada para dizer. A decisão está tomada. Eu disse, a levantar a voz: - Pai, eu quero a Luciana. E ela me quer. Não é uma brincadeira. Ele virou-se para mim, com os olhos arregalados. Ele disse: - Tu queres a Luciana? Ivan, tu tens noção do que estás a dizer? Ela vai ser a tua irmã. Isso é um absurdo. Eu respondi, a bater com a mão na mesa: - Não é um absurdo, pai. É o que eu sinto. E não me importa o que os outros pensam. Ele disse, a rir sem humor: - Não te importas? Ivan, tu vais destruir esta família. Tu vais destruir o meu casamento com a Fátima. Eu respondi, a olhar para ele: - E o que é que é mais importante, pai? Ele ficou em silêncio. Olhou para mim, e eu vi nos olhos dele algo que nunca tinha visto. Dúvida. Ele disse, baixinho: - Ivan, eu só quero o melhor para ti. Eu respondi: - Então deixa-me escolher. Deixa-me ser feliz. Ele abanou a cabeça, e disse: - Não posso. A Luciana vai embora amanhã. E é melhor para todos. Eu saí do escritório, com o coração a bater forte. Não tinha conseguido convencê-lo. Mas eu não ia desistir. Naquela noite, esperei que todos fossem dormir. Por volta das 2 horas, saí do meu quarto, devagar, e fui ao quarto da Luciana. Bati à porta, muito baixinho, e ela abriu. Estava de camisa de dormir, com os olhos vermelhos de tanto chorar. Ela disse, num sussurro: - Ivan, o que é que estás a fazer aqui? Se os nossos pais te vêem... Eu respondi, a entrar: - Não me importa. Vim despedir-me de ti. Ela fechou a porta, e ficamos os dois ali, parados, a olhar um para o outro. Ela tinha a mala aberta em cima da cama, com as roupas dobradas. Eu senti um nó na garganta. Eu disse, com a voz a falhar: - Luciana, eu não quero que vás. Ela respondeu, a chorar: - Eu também não quero, Ivan. Mas a minha mãe já decidiu. E o teu pai também. Eu me aproximei, pousei a mão no rosto dela, e disse: - Então eu vou atrás de ti. Vou a Benguela. Vou falar com a tua avó. Vou fazer tudo para ficarmos juntos. Ela sorriu, com os olhos cheios de lágrimas. Ela disse: - Ivan, tu não sabes o que estás a dizer. Eu respondi, a beijar-lhe a testa: - Sei. Sei muito bem. Eu te quero, Luciana. E não vou desistir de ti. Ela me abraçou com força, e ficamos ali, abraçados, em silêncio. Depois, ela pegou numa coisa na mesa da cabeceira. Era um colar pequeno, com uma medalhinha. Ela disse, a pôr o colar na minha mão: - Isto era da minha avó. Ela deu-me quando eu era pequena. Quero que fiques com isto. Para te lembrares de mim. Eu respondi, a fechar a mão em volta do colar: - Nunca me vou esquecer de ti. Nunca. Ficamos ali até às 4 horas, abraçados, a falar baixinho, a fazer promessas. Depois, ela adormeceu nos meus braços, e eu fiquei acordado, a olhar para ela, a perceber que aquele podia ser o último momento que tínhamos juntos. Às 7 horas, o meu pai bateu à porta. Eu me levantei, e saí do quarto, sem que ele me visse. A Luciana acordou, tomou banho, vestiu-se, e desceu com a mala. A tia Fátima estava na sala, com os olhos inchados. O meu pai estava ao lado dela, sério. A tia Fátima disse: - Vamos. O autocarro para Benguela sai às 9 horas. Eu pedi para ir com eles. O meu pai olhou para mim, desconfiado, mas a tia Fátima disse: - Deixa vir. Ele é da família. Entramos no carro, e fomos para o terminal rodoviário. A viagem foi silenciosa. Eu ia no banco de trás, ao lado da Luciana, e de vez em quando, tocava na mão dela, escondido. Ela sorria, mas os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Chegamos ao terminal às 8h30. O autocarro já estava lá. A tia Fátima comprou o bilhete, e entregou à filha. A Luciana olhou para mim, e eu vi que ela queria chorar, mas estava a segurar-se. Ela disse, a olhar para a mãe: - Mãe, posso falar com o Ivan um minuto? A tia Fátima olhou para o meu pai, que assentiu. Eles se afastaram, e nós ficamos ali, sozinhos, no meio da confusão do terminal. Eu disse, a segurar as mãos dela: - Luciana, eu vou atrás de ti. Prometo. Ela respondeu, a lacrimejar: - Ivan, não faças promessas que não podes cumprir. Eu respondi, a beijar-lhe a testa: - Eu vou. Custe o que custar. Ela me abraçou com força, e sussurrou no meu ouvido: - Eu já te amo, Ivan. Nunca me esqueço de ti. Ela pegou na mala, subiu para o autocarro, e sentou-se junto à janela. O autocarro arrancou, e eu fiquei ali, parado, a ver o autocarro a afastar-se, com o colar da avó dela apertado na minha mão. Eu senti uma dor no peito, uma dor que nunca tinha sentido antes. Eu tinha perdido a Luciana. Mas eu não ia desistir. Voltamos para casa em silêncio. O meu pai ia a conduzir, e a tia Fátima ia ao lado dele, calada. Eu ia no banco de trás, a olhar pela janela, a pensar na Luciana. Quando chegamos a casa, o meu pai foi para o escritório, e a tia Fátima foi para a cozinha. Eu fui para o meu quarto, me deitei, e fiquei a olhar para o teto. Passada uma hora, ouvi uma discussão na sala. Vozes altas. Eu me levantei, e fui ver o que se passava. A tia Fátima estava com o telemóvel na mão, a chorar, e o meu pai estava à frente dela, pálido. A tia Fátima disse, a gritar: - Tu me traíste. Tu traíste-me enquanto eu estava em Benguela? O meu pai respondeu, a gaguejar: - Fátima, não é o que estás a pensar... Ela gritou, a mostrar o telemóvel: - Não é o que estou a pensar? Eu vi as mensagens! Eu vi as fotos! Tu andaste com outra mulher, enquanto eu estava a preparar o nosso casamento! O meu pai tentou se aproximar, mas ela se afastou. Ela disse, a chorar: - Não me toques! Acabou. Acabou tudo. Não quero mais te ver. Ela virou-se para mim, com os olhos cheios de lágrimas, e disse: - Ivan, eu vou-me embora. Vou para Benguela, para a minha filha. Não fico mais nesta casa. Eu respondi, sem pensar: - Tia Fátima, eu vou contigo. Ela olhou para mim, surpresa. Ela disse: - Ivan, tu não tens que fazer isso. Eu respondi, a olhar para o meu pai: - Eu não quero ficar aqui. Eu quero ir atrás da Luciana. E se a tia me deixar ir, eu vou. O meu pai interveio, a gritar: - Ivan, tu não vais a lado nenhum! Eu respondi, a olhar para ele: - Pai, tu traíste a tia Fátima. Tu destruíste tudo. E agora eu vou fazer o que eu quero. Ele ficou em silêncio. A tia Fátima olhou para mim, e disse: - Então arruma as tuas coisas. O próximo autocarro para Benguela sai às 15 horas. Eu subi as escadas, fiz a mala, e desci. A tia Fátima já estava à porta, com a mala dela. O meu pai estava na sala, sentado no sofá, com as mãos na cabeça. Ele não disse nada. Eu não disse nada. Saímos, e fechamos a porta. No terminal, compramos os bilhetes, e subimos para o autocarro. Eu sentei-me ao lado da tia Fátima, com a mala nos pés, e o colar da Luciana na mão. O autocarro arrancou, e eu olhei pela janela, a ver Luanda a afastar-se. Eu não sabia o que me esperava em Benguela. Mas eu sabia que ia atrás da Luciana. E isso era o mais importante.