A FILHA DA MINHA MADRASTA
Episódio 9
A viagem até Benguela foi longa, mas eu nem senti o tempo passar. Fiquei o caminho todo a olhar pela janela do autocarro, com o colar da Luciana apertado na mão, a pensar no que ia dizer quando a visse.
A tia Fátima dormiu quase todo o percurso, cansada daquela confusão toda com o meu pai.
Quando o autocarro começou a aproximar-se da cidade, eu senti o coração a bater mais forte.
Benguela era diferente de Luanda. O ar era mais leve, o céu mais azul, a brilhar com o sol da manhã.
Eu nunca tinha estado ali, nem mesmo fora de Luanda, mas sentia que aquela cidade ia mudar a minha vida.
Chegamos à casa da tia Fátima por volta das 10 horas. Quando o carro parou em frente ao portão, eu fiquei parado.
A casa era linda. Um quintal grande, com flores de todas as cores, um pé de mangueira a fazer sombra, e uma varanda com cadeiras de balanço.
A casa em si era simples, mas acolhedora, pintada de branco, com janelas grandes que deixavam entrar a luz do sol. Parecia um daqueles lugares que aparecem nos filmes, onde tudo é calmo e perfeito.
A tia Fátima olhou para mim, e sorriu:
- É aqui que eu vivo, Ivan. É aqui que a Luciana passou a infância dela. Espero que gostes.
Eu respondi, a olhar para a casa:
- É linda, tia. Muito linda mesmo.
Entramos. A avó da Luciana estava na cozinha, a preparar o almoço. Era uma senhora de idade, com um lenço colorido na cabeça, e um sorriso que enchia a cara.
Ela olhou para mim, e disse:
- Então tu és o Ivan? A minha neta falou de ti. Essa é tua casa também, sinta-se a vontade.
Eu respondi, a sorrir, sem jeito:
- Muito obrigado, vovó. É um prazer conhecer a senhora.
Ela riu, e disse:
- Vovó? Já me tratas por vovó? Gosto de ti, rapaz. Senta-te, senta-te.
A tia Fátima foi arrumar as coisas, e eu fiquei na sala, a olhar à volta, à procura da Luciana. A avó percebeu, e disse:
- Ela saiu cedo, foi dar uma volta. Deixou o telefone em cima da mesa, como sempre. Aquela menina se esquece de tudo.
Eu olhei para a mesa, e lá estava o telefone da Luciana, a carregar. O meu coração apertou. Ela não estava ali. Eu tinha feito aquela viagem toda, e ela não estava ali.
Me apresentaram a casa, o quarto, tomei um banho, e voltei na sala.
A avó serviu a mesa pra mim, comi, mas estava distraído. A tia Fátima sentou-se ao meu lado, e disse:
- Ivan, calma. Ela volta ao fim do dia. Vamos dar uma volta pela cidade, conhecer Benguela.
Ela levou-me a dar uma volta. Fomos ao mercado, à praia, e ela contou-me histórias da infância da Luciana.
Histórias de quando ela era pequena, de quando lutou na rua, kkkk, de quando ganhou um concurso de dança na escola. Eu ouvia tudo, com um sorriso na cara, a imaginar a Luciana pequena, a correr por aí.
A tia Fátima parou, olhou para mim, e disse:
- Ivan, eu sei que tu amas a minha filha. E eu vou fazer tudo para que vocês fiquem juntos. O teu pai traiu-me, e eu não vou deixar que isso destrua a felicidade da minha filha.
Eu respondi, a olhar para ela:
- Obrigado, tia. Eu não vou te decepcionar.
Voltamos para casa por volta das 18 horas. A avó já tinha preparado o jantar, e a mesa estava posta. Eu sentei-me na sala, a olhar para a porta, a espera. O coração batia forte.
Às 19 horas, a porta abriu. E lá estava ela. A Luciana. Vestia um vestido leve, o cabelo solto, e os olhos brilhavam. Quando me viu, ficou parada, com a boca aberta.
Ela disse:
- Ivan? O que é que estás a fazer aqui?
Eu me levantei, sorri, e disse:
- Vim atrás de ti. Eu te disse que viria.
Ela correu para mim, e me abraçou com força. Eu senti o cheiro do cabelo dela, o calor do corpo dela, e soube que tinha valido a pena. A avó e a tia Fátima observavam, emocionadas.
Mas a surpresa não acabou aí. Atrás da Luciana, entrou um rapaz. Alto, bem vestido, cabeludo, com um sorriso confiante. Ele olhou para mim, e depois para a Luciana.
Ele se apresentou:
- Boa noite, eu sou o Nelo. Melhor amigo da Luciana.
Eu senti um aperto no estômago. Melhor amigo? A Luciana nunca me tinha falado de nenhum Nelo. Olhei para ela, e vi que estava estranha, nervosa, a evitar o meu olhar.
Eu disse, a tentar ser educado:
- Prazer, Nelo. Eu sou o Ivan.
Ele sorriu, e disse:
- Ah, o Ivan. A Luciana falou de ti.
O jantar foi estranho. O Nelo sentou-se ao lado da Luciana, e pousou a mão na perna dela, pra mim eram mãos sujas na minha mulh€r. Eu vi, e senti o sangue a ferver. Decidi marcar território.
Eu pousei a mão na mão da Luciana, e disse:
- Baby, passa-me o sal.
O Nelo ficou parado, e a Luciana ficou sem graça. A avó riu, e a tia Fátima fingiu que não viu.
O Nelo tentou puxar conversa comigo, mas eu respondi de forma seca.
Ele disse, a rir:
- Ivan, tu és muito protetor. A Luciana e eu somos só amigos.
Eu respondi:
- Amigos? Então porque é que a tua mão está na perna dela?
A mesa ficou em silêncio. A Luciana olhou para mim, com os olhos arregalados. O Nelo tirou a mão, e ficou calado. A avó tossiu, e disse:
- Vamos comer ya. A comida esfria.
Depois do jantar, o Nelo foi-se embora, mas deixou um clima pesado. Eu confrontei a Luciana, mas não fui agressivo:
- Quem é aquele gajo? E porque é que ele te toca assim?
Ela respondeu, a evitar:
- É só um amigo, Ivan. Não é nada de mais.
Eu respondi, a olhar para ela:
- Amigo? Ele olha para ti como se fosses dele. E tu ficaste estranha quando ele entrou.
Ela disse, a olhar para o chão:
- Ivan, tu estás a exagerar, vamos esquecer isso e comemorar a tua chegada.
Eu respondi:
- Estou a exagerar? Então porque é que ele te mandou uma mensagem a dizer "não te esqueças do que combinamos"?
A Luciana ficou branca. Ela olhou para o telefone, que estava em cima da mesa, e percebeu que eu tinha visto. Ela tentou pegar no telefone, mas eu fui mais rápido.
Eu li a mensagem em voz alta:
- "Não te esqueças do que combinamos. Ele não pode saber de nada."
A Luciana ficou parada, sem saber o que dizer. A tia Fátima apareceu na sala, e perguntou:
- Está tudo bem aqui?
Eu respondi, a olhar para a Luciana:
- Não, tia. Estava a perguntar à Luciana o que é que ela está a esconder de mim.
A Luciana olhou para mim e disse:
- Ivan, eu posso explicar.
Eu respondi, a apertar o colar na mão:
- Você fez confusão em Luanda por causa da Nara. Então, não tenta me julgar, começa se explicar agora.
Ela abriu a boca para falar, mas naquele momento, o telefone dela vibrou outra vez.
Era o Nelo outra vez. A mensagem dizia:
- "Amanhã, mesmo lugar. Não falha, dá um jeito."
Eu olhei para a Luciana, e senti o chão a fugir debaixo dos meus pés. Ela estava a esconder algo de mim. Algo que envolvia o Nelo. E eu ia descobrir o que era, mesmo que isso nos destruísse.
Eu disse, baixinho:
- Luciana, fizeste o quê hoje? Ainda agora que cheguei? É assim que vamos começar?
Talvez tenha sido uma má ideia eu ir para Benguela atrás dela.